sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Resenha: Terra dos homens (Antoine de Saint-Exupéry, 1939)

Ed. Nova Fronteira (2014), 160 pág.
"Quando temos consciência do nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte." (Saint-Exupéry)

"No oceano da escuridão" de tantas distrações depauperadoras do mundo moderno, aquele que lê esta obra septuagenária "se enriquece com a descoberta de outras consciências" - e o milagre da luz de uma consciência faz 'os homens se olharem com um grande sorriso'. 

Se faço uma paráfrase das palavras do próprio autor para apresentar seu livro, é que me falta a arte de sua concepção, pois o pensamento de Antoine Marie Jean-Baptiste Roger de Saint-Exupéry, um piloto de linha, voava mais alto que seu avião.

Aficionado por aviação,  Exupéry escreve em "Terra dos homens" uma apologia ao poder transformador do trabalho, especialmente naquilo em que, "ao se medir com um obstáculo, o homem aprende a se conhecer", e em que as relações humanas - o único "luxo verdadeiro" - ressaltam a moral de que "a grandeza de uma profissão é, antes de tudo, unir os homens".

Tendo "uma extrema necessidade de considerar tudo simples", o autor escreve com grande clareza, numa prosa evocativa, carregada de imagens e sentimentos, em que sua eloqüência literária recai não sobre fraseologias rebuscadas mas nas ideias de sua mente arejada de sãs ideias sobre amizade, responsabilidade e amor pela vida.

O livro ilustra, de fato, recortes autobiográficos de lembranças "que me deixaram um gosto durável", "horas que valeram a pena" e que "nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia presenteado". Conforme expressaria mais tarde, que os amigos que partem "deixam um pouco de si, levam um pouco de nós", Exupéry é fiel à sua visão de que a história pessoal de um homem é um entrelaçamento de vivências: a própria, a das outras consciências amigas, e a do Homem, que "apareceste com o rosto de todos os homens". E é a um amigo de ofício, Henri Guillaumet, que o autor dedica a obra, sem saber que aquele que lhe apontara "a direção da vida" estaria no ano seguinte entre "os companheiros [que] nos retiram sua sombra".

Antoine de Saint-Exupéry
(1900 - 1944)
Em oito capítulos, o texto voa passando por reminiscências dos primeiros dias de aviação, do clima de camaradagem, das pequenas gentilezas, da admiração tácita por aqueles que se fazem responsáveis "pelo destino dos homens, na medida do seu trabalho", porque "ser homem é precisamente ser responsável"; por narrativas de acidentes aéreos, destacando-se a queda de Guillaumet nos Andes, e mais ainda sua sobrevivência, "com uma teimosia de formiga"; sua própria experiência de luta pela vida ao cair no escaldante deserto do Saara, com sua "carícia terna e mentirosa" que lhe ressecaram a fonte de todas as lágrimas; outra experiência, na Argentina, através de cujo relato, Exupéry nos dá seu conceito de "oásis"; e, no entremeio destas aventuras, o emocionante caso de Bark, um escravo dos beduínos, e a inesquecível lição de liberdade - não tão volátil que não faça sentir seu peso sobre a Terra.

O livro é permeado de impressões pessoais sobre a experiência humana, e aí deixa de ser uma narrativa para se converter numa filosofia poética, cheia de gratidão e ternura pela existência. Sua visão de trabalho, que propicia a descoberta da verdade - "verdade, para o homem, é o que faz dele um homem" -, leva-o a lastimar a vida nos centros industriais, onde as pessoas perdem a "verdade camponesa", não podem mais se orgulhar "de sentir o cheiro da tempestade como um primitivo", e a ausência de propósitos comuns afasta os corações das pessoas, porque "amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção". O último capítulo, em que suas reflexões acerca do trabalho atingem o estado de arte, é a melancólica herança espiritual de "Terra dos homens".

Vejo esta obra como um excelente presente a dedicar aos amigos, tanto mais ainda porque suas páginas já deixam entrever a gênese daquele que é o maior sucesso do aviador francês: lá no deserto, 'entregue à vontade de Deus', onde "os erros não têm perdão" e a serenidade tem um limite fixado de tempo, falando consigo mesmo "porque preciso fazer um apelo à minha razão", ou com miragens, sob "a orquestração da fadiga e do delírio", colhendo orvalho, seguindo pegadas de raposa no areal... preocupado com "não [haver] jardineiros para os homens"... Não seria o principezinho do espaço a personificação de seu alentado amor pela rosa humana?

Exupéry (esquerda) e Henri Guillaumet (1902 - 1940) - Argentina, 1930

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