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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O primeiro livro a gente nunca esquece...

Alguns momentos nos marcam profundamente, conforme os sentimentos que estamos vivendo: o primeiro dia de aula, a primeira professora, o primeiro amor, o primeiro beijo... Para mim, dentre as experiências atinentes ao mundo do conhecimento, incluo neste rol a primeira vez que eu comprei um livro. O primeiro livro comprado e lido por mim, fruto da minha escolha, motivada pela curiosidade. Inesquecível, sem dúvida nenhuma. Graças a ele, o universo das letras impressas passou a ter um outro valor. Não era o mundo dos adultos ou das leituras obrigatórias: passou a ser o meu mundo.

Como toda criança, tinha a impressão de que tudo era muito grande a minha volta: os meus pais, a casa onde morávamos, o quintal. O fato de ser pequena, magrelinha e desengonçada, contribuía ainda mais para essa sensação. No meio de outras crianças, não tinha destaque: não era boa nas brincadeiras de bola (morria de medo dela, na realidade!); perdia mais bolinhas de gude do que conseguia ganhar; e se esconder, decididamente, nunca foi meu forte até hoje. Nas brincadeiras de competição, tinha pena da outra equipe quando perdia (uma breve amostra do mundo competitivo que  enfrentaria, mal sabia eu...), mas também lamentava quando era a minha que se encontrava nesta situação (será que eu não me dediquei o suficiente para ajudar a vencer?). E assim, tudo girava em minha volta, como tinha que ser em tão tenra idade.

Mas na escola, para meu espanto, percebi que conseguia ser boa em algo: fazer as tarefas de casa. Recebia elogios da professora por isso. Assim, consegui me sentir importante, ainda que fosse uma virtude que o grupo, do qual queria tanto fazer parte, não admirasse. Parte do tempo sentia-me como se fosse mera coadjuvante que vive sonhando com o papel principal do filme. Não entendia que cada pessoa tem seu próprio roteiro. Aprendi, no entanto, que escrever com uma letra bonita ou ler sem gaguejar eram atividades escolares que me rendiam uma massagem no ego.

Mas no ano de 1987, cursando a 2ª Série do 1º Grau (atual Ensino Fundamental), aconteceu algo que iria me acompanhar por alguns anos e refletiria por toda a minha vida. Li num livro de português o trecho de um romance: descrevia um menino que ia com os irmãos conhecer a nova casa. Chegando lá, cada um correu para escolher a sua árvore, não restando ao pequeno muitas opções, pois não fora tão rápido. Assim, sua irmã (de quem ele mais gostava) resolve ajudá-lo a procurar por uma. Encontraram um pé de laranja lima, pequeno e modesto, em nada se comparando às demais árvores frondosas e imponentes do quintal. Enquanto, inconformado, reclamava da má sorte, o pequeno pé de laranja lima começou a lhe falar, deixando-o assustado! Todavia, a curiosidade era maior do que o impulso de sair correndo aos berros. A partir daí, firmou-se um laço de amizade inigualável entre ele e o menino.
O trecho terminava aí.

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