sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Resenha: "Carta a D. - história de um amor" (André Gorz, 2006)

Cosac Naify (2006): 80 páginas
“Preciso reconstruir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.”

Até o lançamento deste que foi seu último livro, o austríaco André Gorz (pseudônimo do jornalista e filósofo Gerhard Horst) era conhecido por suas obras nas áreas da filosofia e da sociologia, bem como por sua atuação política nos acontecimentos de Maio de 68 na França e em outros eventos marcantes da cultura deste país, onde se radicou.

Carta a D. transformou-o instantaneamente num enorme sucesso literário, com mais de cem mil exemplares vendidos.

O livro foi escrito para homenagear Dorine, sua esposa, com quem partilhou a vida por quase sessenta anos. Desde o início da década de 1990, Gorz vivia em retiro com a mulher, que sofria, há anos, de uma doença degenerativa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Resenha: "Ensaio sobre a lucidez" (José Saramago, 2004)

Companhia das Letras (2004), 325 páginas
"Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento, distribuídos pelo partido da direita, treze por cento, pelo partido do meio, nove por cento, e pelo partido da esquerda, dois e meio por cento. Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de setenta por cento da totalidade, estavam em branco."

Lembro de tomar conhecimento deste autor quando da sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura. O reconhecimento de um escritor da língua portuguesa pela academia pesou para eu buscar conhecer suas obras (hoje, levo em consideração outros critérios, mas estamos falando de uma jovem que se encantava com prêmios e elogios das críticas literárias). Para minha sorte, a indicação e o prêmio atribuídos ao escrito tinham de fato valor. Considerando a aproximação das eleições, acreditamos que a presente obra vem a calhar no atual contexto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Resenha: A revolução dos bichos (George Orwell, 1945)

Companhia das Letras (2007), 152 páginas
"Eram sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma resolução por conta própria".

Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo heterônimo "George Orwell", é o corajoso autor desta fábula estarrecedora, inspirada na tradição do frígio Esopo, do irlandês Jonathan Swift e em sua aguda percepção política que transcende seu tempo. Reconhecendo que a linguagem simbólica dos mitos e fábulas,  a exemplo de "O cordeiro e o lobo" e "As viagens de Gúliver", seria veículo eficiente para externar seu apelo à consciência dos povos, Orwell nos eletriza com esse "conto de fadas" com o intuito claro de nos tirar do torpor em que permitimos a insidiosa apropriação do poder político e social por suínos que chafurdam no lodaçal da corrupção e da prepotência.

No prefácio da edição ucraniana de 1947, Orwell relata uma breve autobiografia em que apresenta os motivos pelos quais escreveu "Animal Farm: a Fairy Story" (literalmente "Fazenda animal: um conto de fadas"), as "experiências através das quais cheguei à minha posição política". Crucial para esse trabalho, iniciado em 1943, foi sua participação ao lado de trotskistas na Guerra Civil Espanhola, 1936/37, tendo sobrevivido a um tiro na garganta e tendo "muita sorte de deixar a Espanha com vida". Havia se tornado pró-socialista "mais por desgosto com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores industriais eram oprimidos e negligenciados", e à pouca admiração teórica por uma sociedade planificada ajuntou-se a valiosa lição de como era "fácil para a propaganda totalitária controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos". De fato, diria mais tarde que "cada linha de trabalho sério que tenho escrito desde 1936 tem sido escrita direta ou indiretamente contra o totalitarismo". "Assim, os principais contornos da história permaneceram em meu espírito por seis anos antes que eu a escrevesse."

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Resenha: A desobediência civil (David Henry Thoreau, 1849)

Companhia das Letras (2012), 152 páginas
"À diferença daqueles que se dizem antigovernistas, eu não peço a imediata abolição do governo, mas [peço um governo] que seja melhor agora mesmo. Que cada homem faça saber qual é o tipo de governo capaz de conquistar seu respeito, e isso já será um passo na direção de alcançá-lo" (grifo do autor).

Segundo o site Impostômetro, até o dia 15 de setembro de 2014, neste ano foram pagos mais de 1 trilhão, 150 bilhões e 871 milhões de reais em impostos. Mais de 3 milhões por minuto. Quase 6 mil reais por habitante. E ainda faltam três meses para acabar o ano! Em geral, o brasileiro passa 5 meses do ano trabalhando para pagar seus impostos mas, na relação dos 30 países com maior carga tributária do mundo, o Brasil fica em último lugar em retorno de benefícios para a população. Segundo o Fórum Econômico Mundial, de 148 países comparados, o Brasil está muito mal posicionado no "ranking" de infraestrutura, educação, saúde, pesquisa e inovação, segurança pública, etc. Outro dado relevante é do levantamento entre os países do G20 (os 19 países de maior economia, mais a União Europeia): os ricos pagam menos impostos no Brasil que nos demais países. Aqui, a maior incidência de tributação indireta penaliza os mais pobres e subsidia serviços privados justamente para a parcela da população de maior renda (o "bolsa rico"). (Veja mais na seção "Leituras recomendadas", no fim deste artigo.)

Revoltado? Henry David Thoreau (1817 - 1862) demonstrou sua revolta recusando-se a pagar os impostos pessoais durante seis anos. Foi chamado a prestar contas mas manteve a resolução de não conivir com o governo: os impostos financiavam uma guerra (contra o México, que terminou com cerca de 30 mil mortes) e a escravidão, o que, para ele, era um fim amoral dado aos recursos públicos. Dessa forma foi preso, saindo no dia seguinte porque "infelizmente" (segundo suas própria palavras) alguém se propôs a quitar sua dívida. Esse episódio o inspirou a fazer um pronunciamento que, no ano seguinte, seria publicado como "Resistance to Civil Government" ("Resistência ao governo civil"), hoje mais conhecido como "A desobediência civil".

A seguir, mais que uma resenha, um sumário circunstanciado da obra, com fartas citações, incluindo passagens de outros dois textos ("A escravidão em Massachusetts" e "A vida sem princípios"), que também compõem esta edição:

  • A desobediência civil (1849)
  • Onde vivi, e pra quê (1854), 2º. capítulo de "Walden" 
  • A escravidão em Massachusetts (discurso proferido em 4/7/1854) 
  • Caminhar (1862) 
  • Vida sem princípios (1863) 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Palestra da Bienal: Tipos de leitores e seus perfis cognitivos

TIPOS DE LEITORES E SEUS PERFIS COGNITIVOS
PAPEL DO LIVRO E DA LEITURA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Palestrante: Lúcia Santaella 


Quando a palestrante, Lúcia Santaella, iniciou a sua apresentação, mostrando o primeiro slide, imaginei que estava na sala errada, pois o tema da palestra não era exatamente o mesmo que constava na programação, para aquela sala e horário. Sim, pois o título de chamada era O PAPEL DO LIVRO E DA LEITURA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, mas no slide constava: TIPOS DE LEITORES E SEUS PERFIS COGNITIVOS. Realmente são temas diversos, mas que se aproximam e se entrecruzam, pois seria impossível explicar os tipos de leitores sem falar do papel do livro e da leitura na sociedade contemporânea. Assim, fiquei ainda mais curioso e resolvi assistir a palestra, principalmente após ouvir as qualificações e a quantidade de livros e artigos já escritos pela palestrante: mais de 40 livros e 167 artigos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Resenha: "O pequeno príncipe" (Antoine Saint-Exupéry, 1943)

Editora Agir: 96 páginas
Como resenhar uma obra que é tão conhecida? Até mesmo quem não tenha lido, lembra de alguma citação que foi dita ou escrita por alguém em algum lugar. Quem não sabe de memória as citações: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" e "(...) só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos."?

O fato de uma obra ser conhecida não significa que tenha sido efetivamente lida. Eis a motivação da resenha: despertar-te, estimado leitor, para a leitura desta obra. Para que não só saibas alguma passagem, mas para atiçar em ti o desejo de conhecer por completo a história desse menino, que surge no meio do deserto e leva um aviador maduro e solitário a repensar seus conceitos de vida. A leitura é rápida e agradável, não vais te arrepender; e ainda voltarás para agradecer a dica!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Resenha: Terra dos homens (Antoine de Saint-Exupéry, 1939)

Ed. Nova Fronteira (2014), 160 pág.
"Quando temos consciência do nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte." (Saint-Exupéry)

"No oceano da escuridão" de tantas distrações depauperadoras do mundo moderno, aquele que lê esta obra septuagenária "se enriquece com a descoberta de outras consciências" - e o milagre da luz de uma consciência faz 'os homens se olharem com um grande sorriso'. 

Se faço uma paráfrase das palavras do próprio autor para apresentar seu livro, é que me falta a arte de sua concepção, pois o pensamento de Antoine Marie Jean-Baptiste Roger de Saint-Exupéry, um piloto de linha, voava mais alto que seu avião.

Aficionado por aviação,  Exupéry escreve em "Terra dos homens" uma apologia ao poder transformador do trabalho, especialmente naquilo em que, "ao se medir com um obstáculo, o homem aprende a se conhecer", e em que as relações humanas - o único "luxo verdadeiro" - ressaltam a moral de que "a grandeza de uma profissão é, antes de tudo, unir os homens".

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